Zuckerberg depõe em julgamento histórico sobre vício das redes sociais

Zuckerberg depõe em julgamento histórico sobre vício das redes sociais

O bilionário “dono” do Instagram e cofundador do Facebook, Mark Zuckerberg, deixou, pela primeira vez, o seu depoimento no julgamento que pode redefinir a responsabilidade das grandes empresas de tecnologia pelo impacto das redes sociais na saúde mental das crianças e jovens.

RTP /
Chris Torres - EPA

A sessão decorreu esta quarta-feira no Tribunal Superior de Los Angeles, onde Zuckerberg, CEO da Meta - uma das maiores empresas de tecnologia do mundo - foi interrogado por um júri sobre alegações de que plataformas como Instagram e Facebook foram deliberadamente concebidas para criar dependência em crianças e adolescentes.

O processo centra-se numa ação apresentada por uma mulher de 20 anos, identificada apenas pelas iniciais KGM, que afirma que o seu uso de redes sociais desde tenra idade contribuiu para pensamentos depressivos e até ideias suicidas, de acordo com a Euronews.

Zuckerberg, de 41 anos, já havia abordado estas questões no Congresso dos Estados Unidos, incluindo pedidos de desculpa a famílias afetadas, mas esta é a primeira vez que depõe perante um júri num caso que testará se os algoritmos e funcionalidades das plataformas são, efetivamente, responsáveis pelos possíveis danos psicológicos.

Segundo os lesados, funcionalidades como o “scroll infinito”, filtros e notificações foram projetadas para manter os jovens “presos” às aplicações, tal como métodos usados em casinos para incentivar dependência, escreve o Diário de Notícias.

Apesar da rede social Instagram já utilizar várias medidas para verificação de idade, o diretor-executivo da Meta lamenta que a sua empresa tenha demorado a identificar utilizadores menores de 13 anos no Instagram. "Eu gostaria que tivéssemos feito isso antes", referiu Zuckerberg.

A empresa Meta nega todas as acusações e afirmou estar "confiante de que as provas demonstrarão o nosso compromisso de longa data em apoiar os jovens", segundo a Associated Press (AP).O caso foi intentado contra quatro empresas: a Meta de Zuckerberg, o YouTube da Google, o TikTok da ByteDance e a Snap Inc., dona do Snapchat. O TikTok e Snap Inc. terão chegado a acordos extrajudiciais antes do início do julgamento.


O advogado da Meta, Paul Schmidt, questionou, sobre as acusações da mulher identificada como KGM, se o Instagram é de facto responsável pelos problemas de saúde mental de KGM, ou se a mulher recorreu às redes sociais “como mecanismo para lidar com essas dificuldades”, de acordo com a Euro News.

A Meta argumenta que não existe prova de que as suas ferramentas provoquem danos diretos e que funcionalidades de segurança, como contas específicas para adolescentes, controles parentais e filtros de conteúdo, demonstram o compromisso da empresa com a proteção dos jovens.

A sessão desta quarta-feira foi também marcada pela presença de vários pais enlutados, segurando fotografias de filhos que cometeram o suicídio, alegadamente, consequência do uso das redes sociais.

"Perdemos os nossos filhos e já não há nada que possamos fazer quanto a isso. Mas podemos informar outras famílias de que estas plataformas são perigosas e que precisam de limites", referiu um dos pais.

Como Zuckerberg, também Adam Mosseri, responsável pelo Instagram, testemunhou no âmbito deste processo, esclarecendo que discorda da ideia “de que as pessoas possam desenvolver uma dependência clínica das plataformas de redes sociais”, segundo a agência AP.

Mosseri defendeu ainda que o Instagram e a Meta trabalham diariamente para proteger os jovens que usam a rede social. "Não é bom para a empresa, a longo prazo, tomar decisões que gerem lucros para nós, mas que sejam prejudiciais para o bem-estar das pessoas", referiu.

O julgamento é considerado um “caso modelo” (bellwether como é apelidado nos EUA), cujas conclusões podem influenciar milhares de ações semelhantes nos Estados Unidos - e não só - contra redes sociais e gigantes da tecnologia.

c/ agências
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